Alcides Fonseca

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Sobre a Avaliação da FCT

Foram revelados os resultados da primeira avaliação da FCT por um painel externo desde 2005.

De realçar que o líder do painel foi membro do conselho directivo da ESF até 2013. ESF essa a quem a FCT encomendou o corte de 50% na avaliação das instituições de investigação portuguesas, e que esconderam esse facto do público. E quando dizem que esse mesmo elemento alega que “A decisão de contratar a ESF foi muito boa”, não há senão um elemento de ridículo.

Relativamente aos resultados, defendem que a FCT deve gradualmente extinguir as bolsas individuais a favor dos programas doutorais patrocinados, e bolsas previstas nos orçamentos dos projectos de investigação. Em relação à primeira solução, acontece que várias áreas ficam sem financiamento, porque não são vectores estratégicos nacionais, independentemente do aluno até ser o melhor da área e ter um projecto que faça todo o sentido. Vamos ter uma levada enorme de biocientistas quando outras áreas ficam para trás.

Em relação às bolsas pagas por projectos de investigação, há o entrave de que o projecto de investigação pode não estar totalmente sobreposto com o período em que o aluno está a fazer o doutoramento ou pode ter uma curta duração. Poderia ao menos existir a possibilidade do doutoramento continuar a ser pago, mesmo depois da data de final de projecto? É que este modelo já existia anteriormente, e optava-se principalmente por bolsas individuais. Até porque essas pagavam as propinas de cerca de 3000€ anos, e as de projecto não.

Mas o motivo para quererem acabar com as bolsas individuais é porque a FCT não tem recursos para processar tantos pedidos de bolsas individuais. Quando há anos que os bolseiros se queixam destes atrasos, é ridículo que a FCT precise de uma comissão externa para lhes dizer isto. Foi mau (péssimo, aliás) planeamento por parte da FCT. E considerando que há apenas uma chamada ao longo do ano, concentra os esforços que deveriam ser melhor distribuídos, numa altura em que durante semanas, a FCT não atende o telefone (eu tentei, acreditem!). E quem saía prejudicado eram os alunos que muitas vezes tinham de esperar até 9 meses após a conclusão do mestrado até poder ter bolsa de doutoramento.

Outro dos pontos que defendem é que “as bolsas de pós-doutoramento não devem exceder 3/4 anos”. Na minha opinião as bolsas de pós-doutoramento nem deviam existir. Os projectos e instituições deviam ter orçamento para contratar investigadores. Com um daqueles papeis que estabelecem uma relação de natureza jurídico-laboral, do tipo que a FCT tem medo e luta para que as bolsas nunca o tenham. De forma a que possam pagar impostos como as outras pessoas, e ter todos os benefícios correspondentes. E já que nem consideram os doutorados trabalhadores (apesar do painel avaliador o fazer, ao dizer “... os salários de doutorados…”, quando eles recebem bolsas e não salários), muito menos consideram os alunos de doutoramento, que trabalham a full-time após o primeiro ano, mas mais uma vez não têm emprego. Andam até aos 35 anos com bolsas, um seguro social voluntário e sem pagar impostos. É assim que tratamos a população que acabam os cursos com as melhores notas. E mesmo isso penso que está a acabar. Da realidade a que tenho acesso e que tem procura, os melhores alunos (e mais competentes) estão a sair para a indústria, deixando a Universidade com os alunos mais medianos. O que era exactamente o que precisávamos. Estatísticas dessas não vi eu no relatório.

Concluindo, a avaliação foi algo que se focou em procedimentos e não em conseguir resultados. Não se falou da ligação com a indústria, nomeadamente fomentar parcerias que financiem projectos. Não se falou na captação de talento, nem nacional nem internacional. Não se falou do estatuto do bolseiro, nem dos valores das bolsas. Apontou-se um erro que existe há mais de 10 anos na FCT, e que a Associação de Bolseiros não faz mais nada senão falar disso. E o único motivo para apoiar a correcção dessa medida é a falta de recursos humanos para fazer uma avaliação anual, de algo que nem devia ser anual.