Alcides Fonseca

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O ensino presencial não vai desaparecer

A mudança recente (e forçada) para ensino à distância mostra-nos as grandes dificuldades que é o ensino à distância. Antes de mais, a maior parte dos professores não estava pronto para esta mudança e as soluções têm sido mais resultado do desenrasque português do que algo realmente planeado. Vou-me focar no ensino superior que é a realidade que conheço melhor (é onde leciono) e é aquela onde os alunos são mais independentes para fazer o seu estudo.

Um dos problemas actuais é que, apesar de várias universidades já assumirem oficialmente que o semestre vai ser todo remoto, não sabem ainda se a época de exames vai ser presencial ou não. Em várias universidades estão a ser estudadas alternativas de avaliação, que vou analisar mais em baixo.

Para começar, estou a estudar duas alternativas diferentes nas duas cadeiras de que sou regente. Numa (com 15 alunos) estou a dar a aula em directo (usando o Zoom) e na outra (com ~180 alunos) gravo vídeos de antemão, que lanço na hora da aula. Os alunos podem ver na hora ou mais tarde. As aulas práticas destes últimos são dados em forma directa (recorrendo ao Zoom).

Sistemas criativos que arranjamos para dar aulas

E a verdade é que para alguém que já trabalhou de forma remote durante vários anos e para várias empresas, eu sinto-me muito desconfortável a dar aulas remotamente. Não espero que nenhum aluno tenha a webcam e microfone ligado. Isso corta a comunicação não verbal por completo e isso faz toda a diferença no ensino. Quando dou uma aula presencialmente, eu vejo a cara de confusão deles quando vou a um ritmo muito rápido, ou o aborrecimento se estou num tópico demasiado tempo. Ou noto se estão distraídos no computador a ver outra coisa qualquer. Remotamente perco toda essa noção e sinto que estou a ir muito mais rápido (uma aula de 50 minutos é dada em ~30 minutos).

Uma segunda questão é a interactividade. A grande diferença no tempo é que eu faço questão de ir fazendo perguntas aos alunos durante a aula quase toda. Podem ser perguntas simples sobre o que acabei de dizer, perguntas mais complexas que exigem raciocínio sobre o que mostrei, ou perguntas sobre o que ainda não falámos, para levantar a curiosidade. Em aulas gravadas não há isto e é muito complicado fazer questões que façam o ouvinte pensar. O estado de espírito de quem vê uma aula no youtube não é a mesma. Em aulas em directo, os alunos vão levantando questões (tendem a preferir chat escrito. Eu próprio o preferia tendo em conta a latência e falta de qualidade em transmissões com muitos alunos) mas chegam-me normalmente fora do tempo ideal para as responder. Não por culpa dos alunos, mas porque eu falo rápido e demora tempo fazer uma pergunta por escrito. E a sensação de receber uma dúvida por email ou equivalente no final da aula sobre um aspecto fundamental do início da aula, faz-nos sentir horríveis em que o aluno deve ter perdido o resto da aula por lhe ter faltado aquela base. A probabilidade disso acontecer ao vivo é muito menor.

Se eu tivesse tido um ano para preparar esta cadeira em formato online (MOOC), teria melhorado estes aspectos? De todo. Aulas online são feitas para alunos que não têm dúvidas, ou que as vão tirar mais tarde de forma assíncrona. Exigem alunos super-motivados, algo que falta em geral nos nossos alunos do ensino superior e que é mais predominante em trabalhadores que pretendem adquirir uma skill específica. Esse parece-me o público-alvo dos MOOC.

Concluindo: a eficácia da transmissão de conhecimento ao vivo é muito maior. E não está relacionado com a complexidade do assunto, mas sim com a eficácia da comunicação não verbal e com o compromisso social de que se estão na mesma sala que o professor, estão a prestar-lhe atenção1.

Falemos agora da avaliação. Eu uso projectos fora das aulas, alguns testes ao longo do semestre e exames que podem substituir estes testes. Os projectos podem continuar a fazer remotamente, embora o espírito de trabalho de grupo não seja o mesmo. Se profissionais com vários anos de experiência têm dificuldade a comunicar à distância [2], quanto mais alunos que estão a aprender o que estão a fazer enquanto o fazem… E o não ter de ficar mais umas horas na faculdade a fazer o trabalho e ter a liberdade de teoricamente poder fazer o trabalho em qualquer momento só faz com que ele desça de prioridade e fique para a véspera, quando será já tarde de mais para fazer o trabalho com o nível esperado de qualidade.

Quanto aos exames, foram propostas soluções baseadas em software proprietário que bloqueia o computador do aluno, forçando-o a apenas ver o teste, e um complemento que regista a webcam, microfone e ecrã e usa algoritmos de machine-learning para identificar possíveis padrões de plágio, que são posteriormente revistos por professores. Deixei de parte esta solução por dois problemas óbvios: nem todos os alunos têm webcam (e podem todos dizer que não têm), o que invalida a proteção contra estarem no telemóvel a trocar mensagens uns com os outros, e as questões de privacidade levantadas: será que essas gravações vão fora dos servidores da universidade? Não tendo uma resposta clara para esta pergunta, fica de fora esta alternativa.

Não há como garantir que a pessoa que faz o teste/exame é aquela que diz que entregou. Obriga-nos a confiar nos alunos, coisa que não fazemos (e por motivos históricos, com razão). O contexto de vários MOOC: profissionais que querem aprender uma skill em particular faz com que a avaliação não seja a parte importante (muitos até nem pagam o extra para terem a certificação, querem apenas concluir a parte lectiva e completar com sucesso o projecto) e com que a questão de ter sido aquela pessoa a fazer a avaliação ou outra não tenha importância.

Não imagino uma ordem dos médicos, engenheiros ou arquitectos a aceitar o curso online de alguém sem garantias foi esse alguém a prestar provas de avaliação.

Portanto o ensino presencial está para ficar, sendo que vão existir cada vez mais MOOC para conteúdos avançados, de reconversão e mais específicos.

1Não tenho aulas de presença obrigatória nas minhas aulas, pelo que quem não estiver interessado é mais do que convidado a mudar-se para o bar mais próximo, onde poderá estar mais à vontade.

2As histórias que tenho com pessoas que não conseguem mesmo comunicar sem ser presencialmente…